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365 Cores do Universo

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"O que se passava, afinal, no mundo dos adultos, na cabeça de pessoas extremamente racionais, em seus corpos carregados de saber? O que os reduzia a animais dentre os menos confiáveis, piores que os répteis?"

Ei! Tudo bem?
Espero que sim :)

Depois de duas grandes postagens sobre A Vida Mentirosa dos Adultos eu, finalmente, trago à vocês, queridos leitores, a resenha de uma das melhores obras já escrita por Elena Ferrante. 

A Vida Mentirosa dos Adultos - Elena Ferrante 
Sinopse: As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo. O amor e a proteção oferecidos pelo lar são as primeiras estruturas a desmoronar quando Giovanna decide conhecer a mulher que pode encarnar seu futuro. Os encontros com a tia são o ponto de partida para o embate com inúmeras questões existenciais ― é possível pertencer a algum lugar em uma Nápoles de contrastes entre o cinza industrial e sua sociedade rica e instruída? Ou transcender os erros e pecados cada vez mais aparentes de pais outrora perfeitos? Como sobreviver ao despertar do desejo? Ao longo dos anos acompanhamos os percalços da transição da infância protegida de Giovanna a uma adolescência exposta às complexidades daqueles que a cercam, evocando também a possibilidade de levar a vida adulta como nenhuma outra mulher fizera até então. Um romance extraordinário sobre transições, paixões e descobertas.

Foi assim, Giovanna aos seus 12 anos descobriu que o pai, aquele que sempre a amou e a elogiou, disse que sua filha estava se tornando Vittoria. No mesmo momento o mundo perfeito de Giovanna foi destruído, ser comparada a tia que sempre fora descrita como feia, má e cruel, fez com que tudo mudasse. Fez com que a menina precisasse viajar até o outro lado de Nápoles, o lado que ela conhecia como ruim, ela precisava conhecer tia Vittoria, ela precisava saber quem ela estava se tornando. 

Claro que eu poderia falar muito mais sobre a trama, mas é exatamente essa descoberta de Giovanna que dá o gás para o livro inteiro, é se perceber e compreender sua mudança de menina para mulher, por consequência, desmascarar a vida que levava. 

Desta maneira, Ferrante nos conduz a uma história crua sobre realizações e descobertas. Nos leva para um lugar que muitos já conheceram e muitos ainda vão conhecer. Consegue, com maestria, invocar no leitor a empatia pela personagem principal, que passa por diversas transformações ao longo das 432 páginas.

Com sua escrita ansiosa e nervosa, a autora consegue mostrar o melhor cenário possível: sim, novamente temos Nápoles. Acredito que, a importância do local nas obras é tão grande que ele acaba se tornando uma personagem do livro também. E não há melhor personagem que Nápoles. 

A cidade de Nápoles é... Faltam-me palavras para expressar o quão complexo essa personagem é. Historicamente importante para a Unificação da Itália e também local de maior desavenças politicas a sociais. Nápoles é literalmente dividida no lado bom e no lado ruim, o lado rico e o lado pobre, e sim, eles não se misturam. 

Em A Vida Mentirosa dos Adultos, Giovanna não descobre apenas as mentiras contadas sobre sua família, mas as mentiras contadas sobre Nápoles, local de sua vida, mas que não reconhece da mesma forma. 

Uma história sobre crescimento, criação, descobertas, o íntimo de Nápoles e da cultura dialetal napolitana. Uma história sobre o ser italiano, sobre se reconhecer como humano e mulher. Elena Ferrante é sobre consequências socioeconômicas, as reviravoltas são verdadeiras, não grandiosas, mas que levam o leitor a se compreenderem como ser no coletivo. 

Genial e brilhante, a grande autora italiana continua nos revirando e nos revivendo. 

Um abraço enorme (à distância) e um beijo!
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"– Porque se não for uma história de amor, então o que é? - Olho para seus olhos brilhantes, para sua expressão de empatia sincera. – É a minha vida – digo. – Isso tem sido a minha vida inteira."

Ei! Tudo bem?
Espero que sim :)

É dia de conversarmos sobre mais um livro, dessa vez a escolha é Minha Sombria Vanessa, obra de estréia de Kate Elizabeth Russell. Uma história forte e que não fala sobre amor.

Minha Sombria Vanessa - Kate Elizabeth Russell
Sinopse: Em 2000, Vanessa Wye é uma estudante solitária de ensino médio. Talentosa e com o sonho de ser escritora, Vanessa diz não se importar de ficar sozinha, principalmente quando seu professor de inglês, Jacob Strane, um homem de 42 anos, começa a prestar atenção nela, elogiando seu cabelo, suas roupas e lhe emprestando alguns de seus livros favoritos ― como Lolita, de Nabokov. Antes que Vanessa perceba, os dois embarcam em uma relação e a jovem acredita que o professor a ama e a considera especial. Mais de uma década depois, uma ex-aluna acusa Strane de abuso sexual, e Vanessa começa a questionar se o que viveu foi realmente uma história de amor ou se não teria sido ela também uma vítima de estupro. Mesmo depois de tantos anos, Strane ainda é uma presença constante em sua vida. Como ela seria capaz de rejeitar o que considera seu primeiro amor? Alternando entre presente e passado, o livro justapõe memória e trauma ao entusiasmo de uma adolescente descobrindo o poder do próprio corpo. 

💥Antes de começar eu gostaria de pedir que, caso você tenha percebido pela sinopse que esse livro pode conter gatilhos, não leia. Essa obra de fato contém gatilhos, não só para quem passou por uma relação de abuso físico e/ou psicológico com um professor ou qualquer outro. É a primeira vez em - quase - cinco anos de blog que eu digo para não lerem um livro caso percebam que essa será uma leitura dolorosa. 

Falando em primeiras vezes, é a primeira vez que eu termino uma história pensando em resenha-la mas só consigo começar a escrever as primeiras palavras três semanas depois. Porque Minha Sombria Vanessa foi um livro que mexeu muito comigo desde as primeiras páginas. 

Vanessa é uma personagem que já existe nos livros new adult principalmente, nos mostra uma visão da vida introspectiva, está na fase de transição para a adolescência, não se entende ainda com as mudanças de seu corpo e também não consegue criar novos laços depois da infância. A diferença de Vanessa para uma outra protagonista, é que ela começa a nos contar sua história se deparando com delações de abuso entre seu antigo professor. E é nesse primeiro capítulo que percebemos que Kate Elizabeth Russell não está escrevendo uma história de amor entre professor e aluna como é tão presente em new adult e outros.

Russell conta a história de Vanessa e Jacob Strane, professor de literatura que tem quase três vezes a idade de Vanessa. Assim que se conhecem, Strane cria toda uma relação com sua aluna e imagens de perfeições que a mesma não conseguia se encaixar, ela é mais uma aluna, mais uma menina de 14/15 anos que está passando por diversos questionamentos sobre quem é, mas a única pessoa que parece ter a resposta é Jacob. Vanessa é convencida por ele, e com referências a Lolita de Vladimir Nabokov, a relação dos dois é construída em segredo. 

Porém, é apenas em 2017, com 32 anos, que a personagem percebe a partir das denuncias de abuso que, talvez, Jacob Strane fosse um pedófilo e não um homem apaixonado. Vanessa guardou segredo sobre a relação por sua vida inteira e agora, com a história se intercalando entre presente e passado, ela precisa decidir o que é certo, precisa entender quem ela é e quem um dia foi. 

"Fico sem ar ao pensar em como estou perto de um grave passo em falso. Uma única reação errada poderia arruinar tudo."

A escrita de Russell é o que faz esse livro funcionar tão bem, ela consegue criar uma atmosfera densa e é quase impossível ler a obra de uma só vez, em muitos momentos eu precisei parar para respirar fundo. 

É muito comum a romantização da relação entre professor e aluno, é absurdamente comum, e isso sai das páginas literárias chegando até no quotidiano, então eu admiro ainda mais o trabalho da autora, porque ela não quis contar sobre amor, ela mostrou a verdade, ela questiona o leitor e consegue conscientizar quem lê. 

O livro se desenvolve de maneira angustiante, logo se afeiçoar por Vanessa é tão fácil, porque você quer tirar ela daquela situação, você começa a ver que ela mesma não quer mais aquela situação, mas ela perdura. Aos 32 anos, Vanessa ainda conversa com Strane e, em alguns momentos, se encontram, trocam mensagens e ligações. E isso só é mais uma forma de controle que ele exerce nela. 

Uma história assustadora, mas necessária. Se você puder, leia Minha Sombria Vanessa, entre nesse mundo para questionar e entender as relações que romantizamos sem ao menos perceber. Russell escreveu uma obra tão grandiosa, merece nossa atenção. 

Um abraço enorme (à distância) e um beijo!
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"Eles tinham seus satélites, mas nós tínhamos seus livros. Na época, acreditávamos que livros podiam ser armas — que a literatura podia mudar o rumo da história."

Ei! Tudo bem?
Espero que sim :)

Hoje conversaremos um pouquinho sobre um lançamento de 2020 da Editora Intrínseca. O escolhi para resenhar porque é um romance histórico, mas sua base é completamente real, poucos pontos ficcionais foram adicionados e, por isso, Os Segredos que Guardamos foi uma das melhores surpresas que eu já tive. 

Os Segredos que Guardamos - Lara Prescott
Sinopse: Inspirado em uma missão real da CIA durante a Guerra Fria, Os segredos que guardamos mostra, de maneira romanceada, como a Agência de Inteligência americana apostou em Doutor Jivago, uma das obras-primas do século XX, para mostrar aos soviéticos o poder de mudança da literatura. O plano era simples: imprimir no exterior Doutor Jivago em russo e contrabandear exemplares da obra que teve sua publicação proibida na União Soviética por ir contra a ideologia do Estado. Para tanto, a experiente e glamorosa espiã americana Sally Forrester deve treinar a novata Irina, uma simples datilógrafa da Agência, a fim de infiltrar o texto no país natal de seu autor, Boris Pasternak, vencedor do Prêmio Nobel com esta obra, porém obrigado por seu governo a rejeitá-lo. Apesar de todo o potencial revolucionário, Doutor Jivago é também uma brilhante história de amor. A inspiração por trás de Lara, a icônica heroína da trama, é Olga Ivinskaia, musa de Pasternak. Os dois mantiveram um caso por décadas, uma relação intensa que sobreviveu à passagem do tempo, às ameaças de um regime autoritário e até aos anos de Olga em um gulag. Assim, mulheres de ambos os lados da Cortina de Ferro protagonizam essa obra que mostra que, embora a história seja escrita pelos vencedores, é nos bastidores que o destino do mundo é forjado. Amantes, espiãs, datilógrafas. Fortes e corajosas, essas personagens ganham vida nessas páginas e são exemplos de que determinados segredos não devem ser guardados.

Como vocês já estão acostumados, direi novamente que não sei por qual parte começar, porque em minha cabeça essa resenha se abre de diferentes formas e se torna extremamente complexa. Por isso, digo já de antemão que meu plano é separar ficção de fatos históricos, em breve vocês terão acesso a uma postagem só sobre o que estava acontecendo naquele período. Hoje, porém, vamos trocar apenas sobre a ficção nessa obra feminina. 

E digo feminina porque é o que ela é. A história é narrada por mulheres fortes, independentes e que querem conquistar seus meios. O livro é dividido de duas formas, em lado Ocidental, onde temos as datilógrafas, Irina e Sally, e lado Oriental, onde a União Soviética predomina com o autor de Doutor Jivago e sua amante, Olga Ivinskaia. E é assim que essa resenha também vai ser dividida. 


Oriente (1949-1961)
Com a União Soviética como plano de fundo, conhecemos logo no primeiro capítulo, Olga Ivinskaia, uma mulher jovem, apaixonada, mãe de dois filhos e conhecida como a amante de Boris Pasternak, grande escritor do século XX. Ela é a inspiração por detrás de Lara, personagem feminina na obra Doutor Jivago, e é por isso que quando ainda mal a conhecemos, ela é levada para um gulag. 

É na miséria, na dor, no sofrimento de Olga que conhecemos quem ela realmente é, e é impossível não se apaixonar pela sua força e coragem. A mesma se nega a contar qualquer detalhe sobre a obra revolucionária que seu amor, Boris, há escrito. 

Dessa forma temos, o que é para mim, a melhor parte do livro inteiro, a carta de Olga de dentro da gulag. Sua dor sai de suas palavras, transborda pelas páginas de Os Segredos que Guardamos e ainda tão no início dessa história. 

Boris acaba se tornando mais um personagem secundário que tenta, até chegar nas mãos de Feltrinelli, a publicação de Doutor Jivago. Com Olga ao seu lado, ele cai completamente e percebemos que, na verdade, nessa história revolucionária, Boris apenas escreveu, Olga quem protagonizou. 

Ocidente (1956-1961)
Provavelmente o lado mais complexo do livro, porque temos diversas personagens e cada uma com sua particularidade, mas vamos focar nas que realmente são heroínas. 

Seria então impossível não começar por Irina. 
A personagem, que tem raízes soviéticas, consegue um emprego como datilógrafa na Agência de Inteligência americana, o que a traz diversos questionamentos, pois ela fora contratada para um emprego cujo tem zero experiências e não parece ter vocação para adquirir. 
Porém, Irina logo percebe que não está ali para ser como as outras meninas da datilografia, ela tem uma função que é completamente secreta: ser uma espiã. É Irina quem deve pegar Doutor Jivago, é Irina quem deve infiltra-lo dentro da União Soviética, já que o lugar simplesmente é contra a sua publicação por ter sentimentos anti-URSS. 

Irina, porém, não tem nenhuma experiência nesse lado de espionagem e quem deve ensiná-la é Sally Forrester. 
Com certeza, sem sombra de dúvidas alguma, Sally é minha personagem favorita. Ela é complexa, está sempre mudando de personalidade e sua única motivação é saber quem ela é de baixo da figura que está apresentando.
A mesma também protagoniza o melhor romance de dentro da história, romance que leva todos os leitores ao delírio. 

Além de Irina e Sally, que serão duplas maravilhosas, temos as outras protagonistas que eu nunca poderia deixar de lado, as datilógrafas. Elas são mulheres, que estudaram, lutaram por seus direitos, e assistem os altos cargos serem adquiridos por homens que na maior parte do tempo, tem menos qualificações que elas, mas por serem mulheres, acabam se tornando datilógrafas. 
Elas não são o maior foco do livro, porém, seus pensamentos e seus instintos revolucionários fazem com que seus capítulos sejam os mais interessantes e são os que, com certeza, fazem com que qualquer mulher se sinta representada pela luta feminista. 

"Até as palavras na cabeça de alguém poderiam ser uma ofensa passível de prisão naqueles tempos sombrios."

No início da resenha, eu comentei que o que me fez gostar tanto dessa história é que ela era pouco ficcional, o que é verdade. Muitos personagens icônicos aparecem, muitos diálogos são reais e a própria missão de Irina aconteceu, então é impossível não se chocar com a veracidade da obra. 

Porém, dando uma opinião extremamente sincera e que pode magoar alguns fãs dessa leitura, é que eu não acho que o foco do livro seja a realidade, mas sim o romance e as protagonistas femininas, o que pra mim não é mesmo um problema, é a solução. O lado histórico é só um plano de fundo, em alguns momentos rasos, o que poderia ter sido trabalhado melhor é claro, mas a obra é sobre mulheres e para mim Lara Prescott, autora do livro, merece todos os aplausos exatamente por isso. 

É um livro de uma mulher brilhante sobre mulheres brilhantes que revolucionaram a nossa história. 

A escrita de Lara pesa muito nos meus comentários, porque é excepcional, é dramática e consegue dar a voz que as heroínas de seu livro precisam, não tenho mesmo comentários negativos - além do fato de eu ter preferido uma maior elaboração na parte histórica, mas é algo muito pessoal -, porque elogios é o que essa obra precisa!

Como disse, pretendo publicar ainda na próxima semana uma postagem só sobre os personagens desse livro, mas contando quem eles são na realidade, fora do ficcional de Prescott. A postagem terá leves spoilers, porém, acho que seria muito legal se vocês gostarem do livro, ler o que vou escrever, porque é sempre divertido conhecer melhor esses ícones do século XX.  

Obrigada por lerem até aqui! Estou muito feliz que Os Segredos que Guardamos é minha resenha de retorno ao blog, espero que tenham gostado! 

Um grande beijo e vários abraços à distância! 
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Tudo bem? Espero que sim.

Deus sabe do trauma que tomei de livros de Booktubers. Adoro canais literários e acredito que seja uma ótima maneira de disseminar a magia dos livros, no entanto, o que tem de livro ruim lançado por eles não é brincadeira não! Eu jurei que não leria mais nenhum livro de Booktubers, no entanto, sempre me simpatizei pela escrita de Daniel e gostava dos mini textos que lia pelo Twitter ou Instagram e também pelo conteúdo do seu canal que resolvi dar uma chance para seu livro de contos chamado de Depois do Fim, seu segundo livro. Daniel também escreveu "Por Onde Andam As Pessoas Interessantes" e "O que eu tô fazendo da minha vida".

Será que valeu a pena? É o que confere agora.


Título: Depois do Fim
Autor: Daniel Bovolento
Editor: Outro Planeta
Gênero: Romance, Drama, Contos
Número de Páginas: 224
Sinopse: Como fica a minha vida depois de você? Como é que a gente faz para esquecer alguém? Os primeiros vestígios do fim, as despedidas, deixar alguém, ser deixado, o recomeço, a necessidade de se acostumar a viver sozinho de novo, os flashbacks, as ligações de madrugada, a falta que persiste, os novos encontros, os velhos encontros, a gente encontrando a gente, um mundo novo surgindo, a luz no fim do túnel. Em Depois do fim, Daniel Bovolento conta a trajetória de todo mundo que terminou alguma coisa e tem que aprender a lidar com as diferentes dores e superações de quem perdeu um amor. São 50 textos em que se misturam crônicas e desabafos sobre recomeço, aprendizado e a esperança de um novo final feliz. 'Cada um de nós encontra uma maneira diferente de encarar o fim. Cada um de nós passa por fins diferentes, por mais que tenhamos tido histórias parecidas.

Quem nunca precisou lidar com a dor da perda, não é mesmo? Sobre as frustrações deixadas após o término de um relacionamento, o gosto amargo na boca e o aperto no coração. Como seguir em frente após um término? Como se redescobrir e reencontrar a felicidade? Como seguir sozinho após dividir sua vida com outro alguém? São os principais temas que Daniel aborda ao longo dos 50 contos que fazem parte de seu livro.

 Quando você achava que nunca aconteceria nada disso com você, quando o fim era uma perspectiva tão imprevisível quanto o início, você acaba tendo uma única certeza: ele ainda está dentro de você. E seu maior problema agora, mais do que qualquer outro, é descobrir como tirá-lo daí.  

Num primeiro momento, achei a proposta do livro bem interessante, uma vez que achava que seria uma história focada em um único casal. O fato do autor ter escolhido trazer 50 textos traz uma pluralidade muita grande pra obra, além de dar espaço para Daniel explorar melhor e com mais calma os temas, uma vez que a cada texto, uma vertente em específica é abordada, mas todas voltadas para a dor e o amor dos relacionamentos e suas inúmeras etapas. Graças a Daniel, eu agora consigo olhar livros publicados por booktubers de outra forma. Foi a minha primeira experiência com o autor, mas é um livro muito bem escrito e produzido e com certeza irei buscar seus outros títulos para ler. Ele possui um tom poético em sua escrita e as frases se conectam e jogam diversas verdades na sua cara enquanto somos apresentados a contos sobre o primeiro amor, a primeira briga, os términos. A falta de amor. A hora de ir embora e recomeçar. E se apaixonar novamente. A vida é um ciclo em que é muito bem representada em Depois do Fim.

 Amor não foi feito para ser prisão e, olha, o mundo é gigante. 

O grande destaque da obra é a maneira singela e simples que o autor conseguiu falar de temas tão complicados e delicados de serem digeridos. A escrita é muito eficiente e você se sente quase fazendo terapia ou chorando as mágoas com aquele amigo que você corre sempre que seu coração está quebrado. Amor, amizade, sexo, paixão. Um relacionamento é questão de identidade e se reconhecer em uma outra pessoa e, mesmo assim, manter a sua própria singularidade. Há sempre muitas dúvidas, incertezas e medo. É uma etapa difícil, ninguém gosta de colocar um ponto final em algo que jurou ser eterno, no entanto, faz parte e serve muito para o nosso crescimento pessoal. Nesses quesitos, o livro é impecável, trazendo a verdade dura e crua de uma maneira muito delicada.

Tempo é relativo. Para você pode ter sido um ano, para mim pode ser uma vida. A gente nunca sabe quanto tempo o outro vai morar na gente depois da despedida. 

O livro é uma coletânea de contos que representam da maneira mais sincera e transparente possível o que é se relacionar com alguém. Você se identifica com os protagonistas dos contos, se reconhece em meio a promessas feitas e a todo esforço por querer que aquela relação dê certo, porém, algumas coisas possuem um fim e você precisa a aprender a seguir em frente. A obra é uma poderosa mensagem de aceitação e amor próprio. É sobre saber a hora de ficar, mas também reconhecer a hora de partir. Mesmo que você esteja em uma etapa de vida diferente das que são abordadas ao longo dos contos, é impossível não se identificar com cada dor, cada palavra, cada emoção ensaiada pelos protagonistas que entram e saem de cena como uma peça de teatro, o filme da vida. É uma leitura tão especial que eu grifei inúmeras passagens e frases que conversaram diretamente comigo. Representam vivências e experiências do autor, mas que certamente servem para trazer reflexões particulares.  Eu separei algumas pra colocar aqui na resenha pra vocês, mais saibam que foi extremamente difícil! 

Se a gente não precisa esquecer um amor quando acaba significa que ele já tinha sido esquecido faz tempo. E qual é o sentido de se amar sem memória?

Depois do Fim possui ótimas histórias e que são altamente impactantes e reflexivas, no entanto, recomendo que você o leia intercalando-o com outras leituras. Por ser um livro de contos e, principalmente, por trazer a conturbada temática de uma vida a dois, os contos podem soar um tanto quanto monótonos e repetitivos, ainda que sejam muito bem escritos. Leia um ou dois contos por vez que acredito que o livro irá fluir muito melhor. Depois Do Fim é um livro que precisa ser degustado lentamente para sentir o peso de cada página.



Para finalizarmos, irei deixar aqui pra vocês a lista de músicas presente no livro. Para quem não sabe, para cada conto, há um título e uma música que representa a história que será contada. A experiência do livro se torna ainda mais imersiva quando você faz a leitura ouvindo a canção indicada. São ótimas músicas, vale muito a pena. Ah, e para quem não sabe, o livro é um dos inúmeros títulos presentes no Kindle Unlimited. Caso seja assinante, por que não dar uma chance para Depois do Fim? 

Nota: 4,0 /5,0 

Nos vemos qualquer dia desses por aqui ou no Startes. Grande beijo! 




Não sou mais eu, mas quem eu era também não é mais seu. A gente sempre deixa de ser, né? Depois de cruzar a soleira da porta, não tem mais volta. Uma vez que esbarramos em alguém e decidimos ir embora, tudo muda.



Lista de músicas presentes em Depois do Fim:
How Long Will I Love You - Ellie Goulding
Same Old Love - Selena Gomez
Say Something - A Great Big World ft. Christina Aguilera
Missing You - Betty Who
Big Girls Don't Cry - Fergie
Caso Você Queira Saber - Cássia Eller
Cena - Mallu Magalhães
I Am Mine - Beta Radio
Drops Of Jupiter - Train
Who Knew - P!nk
The Lightning Strike - Snow Patrol
De Passagem - Cícero
Dreaming With A Broken Heart - John Mayer
Eu Nunca Disse Adeus - Capital Inicial
Cannoball - Damien Rice
A Idade do Céu - Paulinho Moska
Amor Marginal - Johnny Hooker
Sun Tomorrow - Ira Wolf
Blame It on Me - George Ezra
She Used To Be Mine - Sara Bareilles
Rabbit - Matt Duke
As Canções que Você Fez pra Mim - Maria Bethânia
Like I'm Gonna Love You - Meghan Trainor ft. John Legend
In Your Atmosphere - John Mayer
A Noite - Tiê
The Trouble With Us - Chet Faker ft. Marcus Marr
Lost - Liza Anne
When We Were Young - The Sweet Remains
Since U Been Gone - Kelly Clarkson
In Case - Demi Lovato
Old Friend - Angus & Julia Stone
Quem, Além de Você? - Leoni
Photograph - Ed Sheeran
High Hopes - Kodaline
Gone, Gone, Gone - Phillip Phillips
It's a Fluke - Tiago Iorc
Kiss Quick - Matt Nathanson
Alive - Sia
Os Outros - Kid Abelha
Feels Like We Only Go Backwards - Tame Impala
Nothing Compares 2 U - Sinéad O'Connor
Stubborn Love - The Lumineers
Resposta ao Tempo - Nana Caymmi
Girlfriend On Demand - Joss Stone
I Didnt' Know My Own Strength - Witney Houston
The Way I Am - Ingrid Michaelson
Someone New - Banks
A Thousand Years - Christina Perri
Brand New Me - Alicia Keys
Closing Time - Semisonic
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Foto: Momentum Saga

Olá! Tudo bem?

Ainda estamos em outubro e aproveitando a recente leitura que fiz, resolvi trazer mais uma resenha de arrepiar para comemorarmos o Halloween. O livro Medicina dos Horrores da historiada americana Lindsay Fitzharris nos foi enviado por nossa querida editora parceira Intrínseca e agora vim contar tudo que achei a respeito dessa obra. 



Autor(a): Lindsay Fitzharris
Editora: Intrínseca
Gênero: Não Ficcção
Número de Páginas: 320
Sinopse: Em Medicina dos horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris narra como era o chocante mundo da cirurgia do século XIX, que estava às vésperas de uma profunda transformação. A autora evoca os primeiros anfiteatros de operações — lugares abafados onde os procedimentos eram feitos diante de plateias lotadas — e cirurgiões pioneiros, cujo ofício era saudado não pela precisão, mas pela velocidade e pela força bruta, uma vez que não havia anestesia. Não à toa, os mais célebres cirurgiões da época eram capazes de amputar uma perna em menos de trinta segundos. Trabalhando sem luvas e sem qualquer cuidado com a higiene básica, esses profissionais, alheios à existência de micro-organismos, ficavam perplexos com as infecções pós-operatórias, o que mantinha as taxas de mortalidade implacavelmente elevadas. É nesse cenário, em que se considerava mais provável um homem sobreviver à guerra do que ao hospital, que emerge a figura de Joseph Lister, um jovem médico que desvendaria esse enigma mortal e mudaria o curso da história. Concentrando-se no tumultuado período entre 1850 e 1875, a autora nos apresenta Lister e seus contemporâneos e nos conduz por imundas escolas de medicina, os sórdidos hospitais onde eles aprimoravam sua arte, as “casas da morte” onde estudavam anatomia e os cemitérios, que eles volta e meia invadiam para roubar cadáveres.

Hoje em dia pensamos que procedimentos cirúrgicos são super tranquilos e fáceis de serem realizados, as taxas de morte estão cada vez mais baixas e temos um verdadeiro arsenal de produtos, medicamentos e outros recursos que nos impedem de contrairmos uma infecção ou que ajudam no processo de cicatrização, não é mesmo?  Mas sempre foi assim? A pesquisadora, historiada e escritora Lindsey Fitzharris se propôs a mergulhar a fundo na história da medicina cirúrgica, desde seus primórdios até as técnicas mais modernas que conhecemos hoje em dia em que a história da medicina se cruza diretamente com a de um jovem médico e cientista chamado Joseph Lister que dedicou toda a sua vida a pesquisar, implementar e evoluir os procedimentos cirúrgicos até chegarem nos estágios em que conhecemos hoje. 

Não se enganem: Todo o prestígio em ser um cirurgião é recente. Lá em 1850, o quadro era bem diferente e os cirurgiões eram comparados como açougueiros, muitas vezes trabalhavam por horas seguidas e eram muito mal remunerados - quando ainda recebiam algum salário por isso. O cenário cirúrgico 150 anos atrás era catastrófico em que realizar uma operação era praticamente a última opção a ser adotada para a resolução de uma doença e, quando realizada, dava errado e o paciente morria. Os hospitais também eram caóticos: Na época não existia esterilização dos instrumentos, troca de roupas de cama dentre os pacientes e qualquer outro método de higiene; a situação não podia ser pior: Se você fosse ao hospital, as chances de você contrair alguma bactéria e acabar morrendo eram maiores do que você se tratar em casa. Como disse, os cirurgiões eram trabalhadores braçais e sanguinários: Sem qualquer roupa de proteção, máscaras e instrumentos esterilizados, passavam horas realizando procedimentos brutais, amputando membros em anfiteatros lotados, abertos para a comunidade médica e científica acompanharem, em meio a sangue e dejetos. Por não existir anestesia na época, os pacientes eram amarrados nas macas improvisadas e desmaiavam por conta da dor proveniente dos procedimentos e da perda de sangue, que escorria livremente e sujava todo o recinto sem o menor cuidado. Médicos circulavam livremente pela "área cirúrgica" e muitos contraíam doenças e era muito comum que os cirurgiões morressem após algum tempo depois. 

Me perdoem pela descrição dos detalhes, eu sei que embrulha o estômago ler esse tipo de coisa, até porque para nós, hoje é impensável que cirurgias fossem realizadas de tal maneira já que hoje é tudo realizado de maneira tão limpa e consciente, mas esse é o tipo de relato que irão encontrar em Medicina dos Horrores; uma coisa irei dizer a vocês: Lindsay não deixa nada de fora e conta nos mínimos detalhes como eram realizadas as cirurgias em plena era vitoriana, no entanto, ainda que você seja uma pessoa sensível e que não tenha um estômago muito forte, é uma leitura riquíssima e que vai agregar muitos conhecimentos sobre a área médica. Sua escrita precisa beira à perfeição e você se sente como se estivesse lendo uma obra de ficção. A história é envolvente e muito "gostosa" de se ler (péssimo uso de palavras), mas ainda sim, recomendo evitar a leitura na hora das refeições porque em alguns momentos chega a ser repulsiva a leitura.




Em um cenário em que os médicos acreditavam que o pus era um processo de cicatrização natural do corpo e que os hospitais fediam e pessoas padeciam por conta da sépsis e a gangrena, por exemplo, surge um jovem médico chamado Joseph Lister que começa a se incomodar com os níveis altíssimos de mortes causadas por infecções generalizadas e inicia então um trabalho de pesquisa para encontrar uma forma para amenizar os efeitos negativos das cirurgias. Medicina dos Horrores se transforma numa espécie de "mini biografia" em que iremos conhecer os primeiros anos da vida de Joseph e a maneira com que o jovem entra no mundo da medicina e começa a trabalhar nas enfermarias dos hospitais. Joseph sempre foi considerado um médico "a frente" do seu tempo, pois o mesmo tratava seus pacientes de maneira humana, conhecendo melhor cada um deles e não se referindo a eles apenas pelas doenças que os levaram aos hospitais, atitude muito comum por outros médicos e cirurgiões que consideram seus pacientes como cobaias. 

Incomodado pelas condições precárias, Joseph que também era cientista, começa a observar na cidade e a buscar maneiras de melhorar a situação nos hospitais, principalmente o mau cheiro causado pelos corpos dos pacientes que não resistiam. Em meio as pesquisadas realizadas, o médico notou que o esgoto da cidade era tratado com ácido carbólico que ajudava na redução da emissão do mau odor. A partir de então o médico e cientista mergulhou a fundo em pesquisas até esbarrar em estudos realizados por ninguém menos que Louis Pasteur e então Joseph passa a adotar inúmeros procedimentos nas alas hospitalares: Os instrumentos cirúrgicos passaram a ser desinfestados utilizando o ácido carbólico e ele exigia que as roupas de cama dos leitos e os uniformes dos médicos fossem trocadas com frequência, evitando o acúmulo de substâncias como sangue, pus e dejetos. As janelas dos hospitais passaram a ser abertas e agora circulava ar entre os cômodos. Em poucos meses o cheiro podre e pungente do hospital em que trabalhava havia sumido e as taxas de morte por infecção caíram drasticamente. Em meio a todo o avanço, a grande barreira foi convencer os demais médicos e cirurgiões a adotarem essas medidas pois eles não acreditavam em germes e infecções. Em congressos realizados nos EUA e Londres, Joseph foi acusado de charlatanismo e que suas técnicas não eram eficientes. Lentamente, a eficácia dos tratamentos foram espalhadas pelos hospitais que perceberam que as taxas de morte estavam diminuindo e também a cicatrização estava mais rápida. Josephe Lister foi uma figura tão emblemática para o mundo da medicina que seu nome estampa a marca de um dos anticépticos bucais mais conhecidos do mundo, o Listerine. Os inúmeros estudos publicados por Lister serviram como guia para a modernização de procedimentos, além da adoção de suas técnicas de higienização e também a implementação de outras.

Como citei acima, Medicina dos Horrores é um livro que vai te deixar com aquele peso no estômago pois é muito difícil ler sobre como as cirurgias eram realizadas ali em meados de 1800, mas o trabalho de Lindsey é simplesmente impecável em trazer inúmeros conhecimentos até para  quem não é da área da saúde, assim como eu. Fiquei bem impressionado com os relatos do livro e é notável a força de vontade que Joseph teve para levar suas ideias para frente. Ele enfrentou muitos obstáculos e por várias vezes foi desacreditado, mas levando em consideração, graças as suas técnicas, inúmeras vidas foram salvas apenas ao adotar técnicas básicas de higienização.



Nota: 4,0 / 5,0 
* Livro cedido em parceria com a editora Intrísenca *



Com esse texto, finalizamos o nosso mês de outubro e nossos especiais de Halloween. Espero muito que tenham gostado da resenha de hoje e não se esqueça de deixar seu comentário e contar pra mim o que achou.

Nos vemos aqui no próximo sábado ou lá no Startes. 





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Olá, tudo bem com vocês?

Pra quem acompanha meus textos aqui para o site faz um tempinho, sabem que o livro da autora Becky Albertalli, "Com Amor, Simon", se transformou num dos meus queridos da vida toda; O livro foi tão importante e marcante pra mim que inclusive entrou na minha lista de melhores leituras do ano de 2018. Eu demorei, mas comprei a "continuação indireta" da história de Simon, chamado Leah Fora de Sintonia, que traz a melhor amiga do carismático personagem como protagonista e agora temos a chance de conhecer melhor suas inseguranças e angústias.


Autor(a): Becky Albertalli
Editora: Intrínseca
Gênero: YA, Comédia, Drama
Número de Páginas: 320
Sinopse: Leah odeia demonstrações públicas de afeto. Odeia clichês adolescentes. Odeia quem odeia Harry Potter. Odeia o novo namorado da mãe. Odeia pessoas fofas e felizes. Ela odeia muitas coisas e não tem o menor problema em expor suas opiniões. Mas, ultimamente, ela tem se sentido estranha, como se algo em sua vida estivesse fora de sintonia. No último ano do colégio, em poucas semanas vai ter que se despedir dos amigos, da mãe, da banda em que toca bateria, de tudo que conhece. E, para completar, seus amigos não fazem ideia de que ela pode estar apaixonada por alguém que até então odiava, uma garota que não sai de sua cabeça. Nesta sequência do sucesso Com amor, Simon, vamos mergulhar na vida e nas dúvidas da melhor amiga de Simon Spier. Em um livro só dela, mas com participações mais do que especiais dos personagens do primeiro livro, vamos acompanhar Leah em sua luta para se encontrar e saber com quem dividir suas verdades e seus sentimentos mais profundos.


Eu considero Becky uma das melhores autoras da nossa geração. A mesma possui uma particularidade muito grande em sua escrita e eu acho simplesmente sensacional a maneira com que a autora se propõe a discutir assuntos que sejam ainda tão delicados de uma maneira totalmente natural e coesa com a história criada. Leah é uma adolescente que sofre com a separação dos pais e o mais novo namorado da mãe. Ela não se dá muito bem com as pessoas na escola que frequentemente fazem críticas ao seu peso, mesmo ela não se incomodando com esse detalhe. Ela precisa lidar com muitas coisas, incluindo a sua bissexualidade, que ainda é um segredo para todos, inclusive Simon, seu melhor amigo. Com a proximidade do baile de formatura e o término do ensino médio, todos estão muito animados com as mudanças em suas vidas: Estão escolhendo faculdades e fazendo planos para a vida adulta e Leah simplesmente sente que está sendo deixada de lado. Tudo piora quando começa a descobrir que o sentimento de rejeição que sentia por uma menina se transforma em atração e, posteriormente, amor. Sofrendo por se apaixonar por uma menina hétero que, ainda por cima, é namorada de um de seus amigos, Leah passa por esse turbilhão de emoções enquanto precisa lidar por todas essas questões e ainda decidir o que é melhor para seu futuro.

- Está de dieta?  - pergunta Taylor.
- Hein?
Sério, quem faz uma pergunta dessas? Antes de mais nada, acabei de comer vinte toneladas de M&M's. Depois, que tal ficar de boca calada um pouquinho? As pessoas não conseguem assimilar o conceito de uma garota gorda que não faz dieta. É difícil acreditar que eu possa realmente gostar do meu corpo?

No início do texto, eu classifiquei o livro como uma continuação indireta de Com Amor, Simon. Por que eu disse isso? Apesar da narrativa em Leah Fora de Sintonia trazer os mesmos personagens e dar sequência aos eventos após o término do primeiro livro, você não precisa necessariamente ter lido para entender o contexto da história, uma vez que o foco da narrativa é Leah. Ainda que o livro faça algumas referências a história anterior, Becky teve o cuidado de fazer algumas explicações ao longo da narrativa para que as pessoas que não leram seu livro anterior não se sentissem perdidas com o que estava acontecendo. Leah Fora de Sintonia traz a mesma escrita irônica e engraçada da autora e é simplesmente uma delícia de ser lido. Você se distrai e mergulha nos dramas de cada um dos personagens e é fácil perder a hora enquanto lê, contudo, o livro foi bem inferior em alguns quesitos que iremos discutir a seguir. 



Ainda que a história seja escrita de maneira muito agradável, eu simplesmente odiei a Leah. Eu não me lembro da personagem ser tão chata em Com Amor, Simon - inclusive estou pensando em reler o livro só pra ver se a autora modificou tanto a personagem assim, ou ela sempre foi desse jeito, mas não prestava muita atenção nesses detalhes porque estava focado em saber da história do Simon. A personagem tem seus problemas e entendemos isso, mas a menina reclama literalmente de tudo que acontece ao seu redor. Nada nunca tá bom, ela nunca tá satisfeita, ela nunca fica feliz, não importa o quanto as pessoas ao seu redor se preocupem com ela. Chega um ponto que a leitura fica realmente difícil porque Leah se coloca no papel de vítima 100% do tempo e não faz nada pra mudar esse cenário. Diferentemente de Simon que logo consegui desenvolver uma forte relação de simpatia, Leah é apática e nada carismática e eu queria dar uns sacodes nela pra ver se ela acordava pra vida. Sério, não dava. Ao mesmo tempo em que o livro traz ótimos questionamentos, como essa obsessão pelo corpo perfeito e Leah simplesmente não se importar com isso, a personagem em outros questões era totalmente insuportável.

Outra coisa que me incomodou demais foi o desenvolvimento da relação dela com a tal menina. Não irei contar muito sobre isso por motivos de spoilers, no entanto, o livro é muito repetitivo e a autora toma um tempo demasiadamente longo pra não chegar em lugar nenhum: São capítulos e capítulos que ficam naquele "lenga lenga" e você simplesmente não aguenta mais ler sobre a mesma coisa. Os diálogos entre as duas também foram bem esquisitos e Leah sempre repetia a mesma coisa. Tava cansado já. Novamente, torno a frisar que acho Becky uma das autoras mais representativas da atualidade. Ela busca sempre incluir protagonistas diferentes e temáticas muito delicadas que precisam ser discutida, mas em Leah Fora de Sintonia, não curti muito a maneira com que os temas como separação, bissexualidade e foram retratados. Achei tudo um tanto quanto esquisito e em algumas situações até forçadas. Já o racismo, um outro tema explorado na história, achei super pertinente e bem escrito. Foi um ponto de destaque positivo na obra e vale ser mencionado.

A única coisa pior do que experimentar vestidos é ouvir um monte de garotas magrelas experimentando vestidos no provador do lado. Ouvi-las procurando defeitas em si mesmas. É como se nem adiantasse eu gostar do meu corpo, porque sempre tem alguém para me lembrar de que eu não deveria gostar.

Se por um lado o gancho principal da história do livro estava chato, o mesmo não devo dizer sobre o desdobramento das narrativas dos personagens secundários. Simon continua sendo o melhor personagem já escrito pela autora e confesso que fiquei mais curioso em saber mais sobre o que aconteceria com ele e "Blue" do que a história da Leah em si. Os personagens coadjuvantes continuam exercendo um papel fundamental e de suma importância para o desenvolvimento da narrativa e particularmente, gosto muito da maneira com que Becky mistura a vida dos seus personagens nessas situações diversas em que cada um é construído de maneira interessante e coesa. Eles possuem seus momentos de destaque na obra e apesar dos problemas que encontrei com a história da Leah, tenham certeza de que o livro continua sendo muito divertido e algumas cenas são simplesmente hilárias e memoráveis, como o convite de Simon para o baile de formatura.

Leah Fora de Sintonia traz uma ótima mensagem de aceitação e empoderamento e, em minha opinião, se a autora não tivesse criado de maneira tão "artificial" o relacionamento entre as duas, o livro teria um resultado muito superior. Mesmo não sendo lá sua melhor obra (eu amo e vou defender Simon até o final), é uma leitura leve e rápida de ser feita, trazendo temas modernos em uma narrativa moderna e jovial. Recomendo que você faça a leitura de Com Amor, Simon e depois leia Leah, pois é uma ótima oportunidade de complementar as narrativas criadas no primeiro livro e ainda matar as saudades de personagens tão importantes e representativos.



Nota: 3,5 / 5,0 



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Olá, tudo bem?

Você sabe quem foi Josef Mengele? Conhecido como o Anjo da Morte, o médico nazista trabalhava em Auschwitz, a maior rede de campos de concentração localizados na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que 1.3 milhão de judeus foram mortos nas câmaras de gás ou não resistiram às diversas torturas e ao regime de trabalho escravo em que eram obrigados a trabalharem. Muitos também morreram por fome ou por não possuírem as mínimas condições básicas para a vida. Josef Mengele desempenhou um triste papel na vida dessas pessoas: O médico realizava uma espécie de triagem em que decidia o destino dos homens, mulheres e crianças:, As câmaras de gás, os trabalhos escravos no campo ou se seriam cobaias para os experimentos macabros que ele realizava em seu laboratório. No final da Segunda Guerra após a Alemanha ser derrotada, o médico consegue escapar das acusações e consegue refúgio na Argentina, local que viveu por muitos anos, até sua morte em solo brasileiro em 1979. O jornalista francês Olivier Guez refez os passos do Anjo da Morte e conta com uma riqueza impressionante de detalhes a história de um dos personagens mais emblemáticos e cruéis de um período tão obscuro da nossa história. O livro "O desaparecimento de Josefe Mengele" é o mais novo lançamento da editora Intrínseca e conta exatamente sobre os anos em que o médico se exilou na Argentina para fugir das consequências de seus terríveis atos. 



Autor(a): Olivier Guez
Editora: Intrínseca
Gênero: Romance-Verdade
Número de Páginas: 223
Sinopse: Josef Mengele, o médico nazista que ficou conhecido como Anjo da Morte no campo de concentração de Auschwitz, escolhia o destino de suas vítimas: as câmaras de gás, os trabalhos forçados ou seu laboratório, alimentado diariamente com anões, gigantes, deformados e gêmeos para pesquisas e experimentos macabros. Ele consegue escapar dos tribunais no fim da Segunda Guerra Mundial, mudando-se para a América do Sul em 1949, quando chega à Argentina. Escondido sob vários pseudônimos, Mengele acredita poder levar uma vida nova em Buenos Aires. A Argentina de Perón é benevolente, o mundo inteiro quer esquecer os crimes cometidos pelos nazistas. Mas a perseguição recomeça e o médico precisa fugir para o Paraguai e depois para o Brasil. Sua mudança de esconderijo para esconderijo não cessou até a sua morte misteriosa em uma praia brasileira no ano de 1979. Como um médico da mais temida organização nazista pôde passar despercebido por trinta anos? O desaparecimento de Josef Mengele é um mergulho em um mundo corrompido pelo fanatismo, a política, o dinheiro e a ambição, habitado por velhos nazistas, agentes do Mossad, espiões e ditadores. Olivier Guez traça a odisseia da fuga de Josef Mengele pela América do Sul, em um romance-verdade sobre sua vida clandestina depois da guerra.


Primeiramente, devo iniciar essa resenha dando meus parabéns ao autor. Ele não só mergulhou na história de Josefe em busca da verdade sobre o conturbado desaparecimento do médico e sua fuga para América do sul, mas o jornalista refaz todos seus passos, a começar pela Alemanha, vindo até a América do Sul e visitando países como a Argentina, o Peru e o Brasil em busca de evidências do período em que viveu em tais países para a reconstrução de sua história. Todo seu trabalho de pesquisa o possibilitou a escrita de um livro denominado como "romance-verdade" ao invés de trazer uma biografia em si. O livro não aborda aspectos pessoais do médico, ainda que por diversas vezes, através da dramatização da história, Josefe relembra do seu passado. Foi uma experiência totalmente diferente de tudo que eu havia lido até então (incluindo romances históricos), pois você se sente como se estivesse lendo uma matéria de jornal ou reportagem especial sobre a temática, mesmo que houvessem personagens e dramatizações das cenas. O sentimento que tive foi de que estava assitindo a um documentário e chega a ser impressionante o nível de conhecimento que Olivier obteve durante suas pesquisas para a elaboração do livro. O autor francês também parece ter vivido dentro da cabeça de Mengele em que apresenta para o leitor uma espécie de ponto de vista sobre o que ele pensava dos ideais hitleristas e de como o isolamento na América do Sul afetou sua vida. O relato é verídico e muito coeso, repleto de curiosidades e outras informações das quais não possuía o conhecimento - como, por exemplo, a simpatia pelo regime nazista de Perón, presidente argentino na época em que Mengele esteve no país. 


A obra não funciona como uma biografia, como citei acima e apesar de se aprofundar melhor na vida do médico, O Desaparecimento de Josef Mengele relata a caçada internacional em busca do paradeiro do médico. Desde que escapou dos tribunais alemães e com medo de se tornar um prisioneiro político, Mengele foge para a América até que as coisas em seu país de origem "voltem ao normal", como ele mesmo sugere. Nesse ponto do livro, a narrativa se propõe a ilustrar até então um lado totalmente diferente do médico: Em seus relatos e cartas enviados para sua esposa, Mengele demonstra toda a solidão que sente por estar em solo estrangeiro e se mostra acuado, com medo do que pode vir a acontecer em seu futuro. Em momento algum o livro tenta amenizar as atrocidades cometidas em seu laboratório e não ocorre a mudança de imagem de um homem sádico e cruel. Ainda que ele estivesse com medo, Josef acreditava cegamente que era necessário fazer todas aquelas coisas em prol de algo maior. 




A caçada ao Anjo da Morte chegou ao fim em fevereiro de 1979 quando seu corpo foi encontrado em uma praia no litoral paulista. As autópsias revelaram que Josef Mengele morreu devido a um mal súbito, encerrando assim uma série de fugas por inúmeros países, sempre facilitado por conhecidos e outras pessoas que apoiavam o nazismo que possibilitaram essas movimentações clandestinas sob inúmeras identidades. Todos esses fatos são contados em inúmeros detalhes em uma narrativa muito envolvente e fluída; é um livro relativamente curto e que você consegue finalizá-lo em algumas horas, ainda que o conteúdo da obra em si seja muito pesada. Para vocês terem uma ideia, a narrativa verídica construída por Olivier Guez é tão rica em termos de pesquisa, que seu livro recebeu o prêmio do Prix Renaudot em 2017, um dos maiores prêmios nacionais. A verdade sobre o desaparecimento de Josef Mengele foi sempre cercada de muito mistério e perguntas que levaram anos até finalmente serem respondidas. Uma grande recompensa era oferecida para quem dispusesse de qualquer informação sobre seu paradeiro e/ou encontrasse seu corpo. Graças ao exímio trabalho de pesquisa realizado pelo jornalista francês, foram apresentadas algumas respostas para questões que se mantiveram no ar durante décadas. 


Nota: 4,0 / 5,0 
*Livro cedido em parceria com a editora Intrínseca* 


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Foto: Paraíso das Ideias 

Olá!

Tudo bem com vocês?

Essa resenha finalmente saiu! Eu nem acredito. Se não me engano, lá em janeiro quando estava fazendo as minhas metas de leituras para o ano, coloquei o livro Vox da autora Christina Dalcher como uma das distopias obrigatórias para 2019. Os meses foram passando, fui empurrando a leitura com a barriga, mas finalmente as férias chegaram e eu consegui pegar para ler, o que me deixou muito feliz em finalmente riscar mais um livrinho da minha lista (vou ignorar totalmente o fato de que ainda me faltam aproximadamente uns 50 livros para finalizá-la e já estamos em setembro). 

Hoje vim falar um pouquinho pra vocês sobre. Vamos lá?


Autor(a): Christina Dalcher
Editora: Arqueiro
Gênero: Distopia, drama
Número de Páginas: 319
Sinopse: O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. Esse é só o começo... Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir... mas não é o fim. Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz.

Eu já comentei várias vezes que através da criação de uma distopia, os autores conseguem trazer críticas a um sistema governamental, uma situação que vivemos ou uma maneira com que a sociedade ou determinado grupo se comportam a fim de abrir a discussão a respeito de temas que, muitas vezes, são extremamente difíceis de serem abordados. Vox segue por esse mesmo estilo e logo de cara sua história se assemelha muito com um dos melhores livros do século, O Conto da Aia.

- (…) É uma organização com enorme peso religioso. - Jackie se inclinou pela janela, para ver melhor. - E são principalmente homens. Homens conservadores que amam seu Deus e seu país. - Ela suspirou. - As mulheres, nem tanto.

Em Vox, após a eleição de um presidente que possui uma forte ideologia religiosa e extremista, o governo norte americano decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. As palavras são contadas a partir de um marcadores que carregam no pulso e após o limite ser atingido, as mulheres passam a receber choques que aumentam de acordo com o número de palavras excedidas.Dessa forma, elas aprenderam a viverem em silêncio, pensando muito bem antes de gastar a sua cota diária de palavras e passam a se comunicar através de gestos, quase como uma lingagem de sinais. Elas também precisaram sair de seus empregos, tiveram seus passaportes conficados, os livros foram guardados, foram proibidas de escrever e gerar qualquer conteúdo;  todo o acesso à informação é ditado e controlado por seus maridos, sendo suas unicas obrigações cuidar de seus filhos e dos afazeres de casa. Os alunos foram separados em escolas por gênero e para as crianças de pais do mesmo sexo, foi dado à tutela aos avós ou alguém responsável, enquanto seus pais eram levados para campos de concentração (exatamente esse termpo que utilizam no livro) onde eram "reabilitados".  Na escola das meninas, as alunas aprendem apenas a fazer contas, ver horas e a cuidar da casa e dos filhos, enquanto, para os meninos, eles recebiam uma rígida educação religiosa e eram vistos como "puros e salvadores". 

A protagonista da história, Jean McClellan, uma cientista renomada e fonoaudióloga se vê em um inferno particular e sem qualquer expectativa de mudança. Seus dias, outrora repletos de trabalho se reduzem a cuidar da casa, seus filhos e o marido. AO mesmo tempo, ela começa a ensinar a sua jovem filha a como se comportar nessa nova sociedade em que as mulheres são silenciadas. Um dia, Jean recebe uma inesperada visita: O presidente dos EUA a convoca para a retormar ao trabalho de pesquisa que a mesma já fazia na área para salvar o irmão do presidente, que sofre de uma terrível e misteriosa doença. Ela então recebe o status de "mulher livre", sua pulseira é retirada e não existe mais limite de palavras: Ela recebe acesso ao seu antigo laboratório e uma equipe, no qual devem trabalhar para descobrir a cura da doença. Enquanto Jean e seus outros parceiros seguem com o projeto, descobrem a terrível verdade a respeito da "convocação" do presidente, cuja pesquisa pode desencadear consequências graves e definitivas para a população e passam a trabalhar sob disfarce, arquitetando um plano para conseguirem derrubar o presidente e por um fim nesse regime totalitário. 

- Você não tem nada a ver com isso, mãe. A decisão é do meu pai.
Talvez tenha sido o que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia com os sérvios, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como as crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível.

A história, ainda que se assemelhe com O Conto da Aia e trate principalmente a repressão das mulheres, possui muita identidade, o que é muito bom. É um livro altamente polêmico que discute a junção da religião em ambiente político, transformando algo que, em teoria, deveria ser para todos em um regime totalitário, separatista e injusto. Em Vox, os ideais políticos e religiosos se misturam e criam todo esse ambiente que subjulga, tortura e desvaloriza principalmente as mulheres, mas também qualquer um que foge dos padrões impostos pela religião. Existem perseguições muito claras a negros, gays, pobres e pessoas que seguem religiões diferentes e o livro cumpre seu papel social de expor os problemas em que muitas vezes fingimos não ver. É uma história que se torna muito desesperadora de ler e altamente visceral. Ao mesmo tempo que se trata de uma distopia, podemos interpretar sua premissa como uma metáfora em que as mulheres lutam para serem ouvidas em uma sociedade machista e sexista. Outro ponto de reflexão que tiro é que o fato de haver uma limitação da quantidade de palavras é de que as mulheres precisam sempre provar tudo, estarem embasadas e estarem certas do que estão falando, caso contrário, não serão ouvidas, enquanto que para os homens, existe a liberdade de falar tudo, sem preocupações, restrições ou filtros. Vox nos passa lições muito fortes e uma mensagem clara de que a opressão acabou e de que as mulheres podem - devem e vão - conquistar seu espaço de fala.

Eu realmente amei a história, as metáforas e ensinamentos que Chrstina utilizou para a criação de Vox. Quanto à isso, eu realmente não tenho críticas e acho um dos livros mais autênticos e geniais dos últimos anos, no entanto, senti que a autora pecou em alguns detalhes duranta a execução da história. Todo o desenrolar da narrativa se desenvolve muito rápido e algumas coisas não consegui compreender totalmente o motivo de terem acontecido. O livro tem um pouco mais de 300 páginas e todos os capítulos são muito curtos, com duas ou três páginas no máximo e acontecem tantas reviravoltas e tantas outras coisas em um intervalo tão curto de páignas que fica difífil de acompanhar. Eu fiquei um pouco perdido com a narrativa dos personagens, várias vezes eles entram em momentos de divagação e lembranças do passado, no entanto, não ocorre nenhuma separação ou indicação na narrativa disso e várias vezes fiquei pensando se estavam lembando do passado ou se de fato estava acontecendo. Na questão dos personagens, nenhum se destacou, em minha opinião. Eu realmente não me senti conectado con nenhum deles e tampouco senti empatia por suas motivações e histórias pessoais e acredito que o fato do livro se desenvolver muito rápido, não dê o tempo certo para os leitores se acostumarem com os personagens. 

Apesar dos problemas que encontrei durante a narrativa, avalio Vox como uma experiência muito satisfatória e enriquecedora. O livro é bem frenético e você dificilmente se sente entediado, ao menos, foi o que senti, mesmo não tendo me conectado com os personagens. Acredito que seja um livro reflexivo e que traz inúmeros conhecimentos sobre todos esses temas, mas que pecou na execução e estruturação da história. O grande destaque da obra escrita por Dalcher vai para a maneira com que a autora criou o fanatismo religioso e os ideiais de "família tradicional" como ferramenta a se correlacionar com a nossa sociedade atual e a maneira com que ainda as mulheres são tratadas. Vox é um grito que rompe o silêncio e aponta a verdade em nossa cara. Com certeza foi uma ótima leitura e que recomendo para todos, principalmente para as pessoas que se interessam a entender melhor sobre como sociedades extremistas e regimes totalitários surgem.

Nota: 3,5 / 5,0 


 A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.



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Foto: Minha Vida Literária
Olá!
Tudo bem com vocês?

Não, não se preocupem. Vocês não clicaram errado. Eu sei que vocês estranham quando não falo de King ou de algum livro de suspense, thriller mas é muito importante dar uma variada, não é mesmo?
Felizmente em agosto consegui retomar meu ritmo de leitura e creio que tenha sido o meu mês mais produtivo na área. Essa, se não, me engano, é a terceira vez que trago uma resenha de algum livro da Colleen Hoover aqui pra vocês, uma das autoras mais polêmicas da atualidade. Particularmente eu gosto muito de seu estilo de escrita e me agrada a forma com que a mesma monta a sua história. Hoje vim falar um pouquinho pra vocês a respeito do livro As Mil Partes do Meu Coração, lançada pela Galera Record.


 
Autor(a): Colleen Hoover
Editora: Galera Record
Gênero: Drama
Número de Páginas: 336
Sinopse: Para Merit Voss, a cerca branca ao redor da sua casa é a única coisa normal quando o assunto é sua família, peculiar e cheia de segredos. Eles moram em uma antiga igreja, batizada de Dólar Voss. A mãe, curada de um câncer, mora no porão, e o pai e o restante da família, no andar de cima. Isso inclui sua nova esposa, a ex-enfermeira da ex-mulher, o pequeno Moby, fruto desse relacionamento, o irmão mais velho, Utah, e a gêmea idêntica de Merit, Honor. E, como se a casa não tivesse cheia o bastante, ainda chegam o excêntrico Luck e o misterioso Sagan. Mas Merit sente que é o oposto de todos ali. Além de colecionar troféus que não ganhou, Merit também coleciona segredos que sua família insiste em manter. E começa a acreditar que não seria uma grande perda se um dia ela desaparecesse. Mas, antes disso, a garota decide que é hora de revelar todas as verdades e obrigá-los a enfim encarar o que aconteceu. Mas seu plano não sai como o esperado e ela deve decidir se pode dar uma segunda chance não apenas à sua família, mas também a si mesma. As mil partes do meu coração mostra que nunca é tarde para perdoar e que não existe família perfeita, por mais branca que seja a cerca.

Eu sei que muita gente não gosta da autora. Eu apenas li seus livros mais recentes, mas tenho uma amiga que gostava muito da autora, no entanto, parece que houve uma mudança muito brusca com relação aos estilos de livro que a autora publica, trazendo agora uma temática mais adulta e colocando em evidências assuntos complicados e de impacto. Particularmente me agrada mais esse estilo, já que não gosto muito de livros de romance, porém, começo essa resenha dizendo que da mesma forma que em Tarde Demais, seu outro livro, a autora precisa modificar a forma com que os assuntos são abordados. Iremos comentar sobre isso mais adiante.
Merit Voss possui uma família bem disfuncional. Eles vivem em uma antiga igreja que foi transformada em uma casa em que vivem seu pai, sua nova esposa chamada Victória, sua mãe que após um câncer desenvolveu algumas fobias sociais e agora mora no porão da igreja e não sai de casa por nada (e, por sinal, seu nome também é Victória). Seu irmão mais velho Utah também mora na casa, assim como Moby, o caçula e filho do segundo casamento de seu pai, e sua irmã gêmea idêntica, Honor. Merit sofre de uma espécie de complexo de inferioridade com relação à sua irmã, que é sempre a mais bonita, a mais inteligente, a mais legal e popular, enquanto Merit se enxerga como invisível. Como se o cenário já não fosse caótico o suficiente, a casa recebe dois novos moradores: O divertido Luke e o misterioso Segan, namorado de Honor. Como sabemos muito bem, isso por si só se categoriza como um episódio de A Grande Família, mas não faz nem um pouco o estilo de Colleen. Cada membro da família Voss esconde um segredo e possuem seus fantasmas no armário. O ponto convergente de todos os segredos é Merit, que não aguenta conviver com a família fingindo que tudo funciona as mil maravilhas enquanto as coisas são jogadas para debaixo do tapete e resolve expor o segredo de cada um deles.

Ninguém poderia supor nada disso nem mesmo de dentro da nossa casa. Sabemos guardar segredos nessa família. 

Como citei, essa é a minha terceira leitura da autora. Também já havia lido Tarde Demais e É Assim Que Acaba, dois livros que foram verdadeiros soco no estômago tamanha agressividade. A autora sempre apostou em personagens complexos e dramas reais, mas em As Mil Partes do Meu Coração a autora caprichou. Eu nunca li uma história em que todos os personagens fossem tão bem explorados e na narrativa; os segredos dos membros da família Voss são muito bem aproveitados e entrelaçados, que me passou o mesmo sentimento de sufocamento que Merit sent antes de expô-los ao mundo. O drama família é realmente muito bem desenvolvido e você acaba reconhecendo sua família por tabela; obviamente, os segredos não são assim tão densos (talves sejam, vai saber), mas todo mundo tem seus problemas e precisamos encontrar uma forma de resolvê-los e não viver em uma fotografia. Esse pra mim, talvez seja o grande objetivo do livro: Demonstrar que por trás de gramados bem cuidados e cercas brancas, toda família tem seus problemas e desavenças.

Tanta gente sonha em morar em uma casa com uma cerca branca, pensando em ter uma casa grande e confortável. O que as pessoas não sabem é que não existe família perfeita, por mais branca que seja a cerca.

Retomando o que disse lá no início sobre a escolha de temática para os livros, acredito que seja de suma importância que falemos cada vez mais sobre os temas que Colleen aborda. Inclusive, é o papel social e cultural da literatura. No entanto, é necessário muito cuidado com a escolha de palavras e a forma de abordagem. Muitas vezes, uma pessoa que sofre de algum desses problemas pode interpretar seus diálogos como gatilho e aí sim desencadear algo muito pior. A escrita da autora é muito envolvente e imersiva, o que torna muito fácil prestar atenção em seus textos. Ao falar sobre depressão, por exemplo, ao longo das páginas de As Mil Partes do Meu Coração, notei uma certa romantização, o que pode ser extremamente perigoso, principalmente se levarmos em consideração o público alvo da autora. Contudo, torno a frisar que sim, precisamos debater e discutir sobre a cultura do estupro, violência doméstica, depressão, entre outros, porém, é necessário haver um zelo muito maior para a abordagem em filmes, séries e livros.
Voltando a falar da história, o livro flui muito bem e eu o finalizei em apenas um dia. Sua narrativa é muito fácil de se apegar, os personagens carismáticos e é tudo muito bem amarrado. Confesso que num primeiro momento, não estava gostando muito, principalmente pelos famosos clichês adolescentes de obras do gênero que ninguém mais aguenta, mas depois a história se transforma em algo muito mais complexo e denso. Eu amei de paixão os personagens e senti que a história poderia se estender por  mais 500 páginas que não ficaria chato. Luke é a melhor parte, com toda certeza e não quero contar muito sobre a ligação dele com a família pra não estragar a surpresa, mas vocês irão gostar. Realmente, o meu grande problema com a narrativa foi a romantização de certos pontos e também alguns exageros nas temáticas; ficou um pouco aquela sensação de que foi escrito apenas para chocar, soando deslocado e artificial da narrativa. Outra coisa que não gosto muito é que em toda a história da autora (ao menos as que eu li), todos os personagens são muito padronizados e "elitizados". A autora possui muita coragem em abordar temas difíceis, mas utiliza sempre esse mesmo grupo. 

Nem todo erro merece uma consequência. Às vezes a única coisa que ele merece é o perdão. 
As Mil Partes do Meu Coração é uma história mega divertida e importante. Ainda que aborde situações complicadas, é uma narrativa que te segura e é algo agradável, diferente de Tarde Demais, livro que te deixa com gosto amargo na boca durante toda a leitura. Recomendo para todos, no entanto, tomando cuidado com os pontos que destaquei. No mais, é uma leitura muito reflexiva sobre enfrentar os nossos problemas de frente e que não há coisa mais valiosa no mundo do que nos cercarmos das pessoas que nos amam, a nossa família.

Nota: 4,0 / 5,0
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Ainda perdida e ainda tentando achar luz em textos alheios e palavras autorais. Amante de café, literatura, fotografia, cinema, viagens e amor.

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